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Duas ou Três Coisas que Sei Sobre Milton Nascimento
Apresentação: Chico Amaral
Publicação: Revista UBC
Data: 2013-08-01

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. “Provavelmente o maior compositor brasileiro pós-Jobim/Gilberto” (Paul Simon no site Milton Nascimento)

. Milton cresceu, como todo mundo, no diálogo e na admiração. Muitos artistas, hoje, se esquecem de que o importante é admirar, e pensam que ser admirado é o grande lance. Bituca é um grande fã dos músicos e dos artistas de qualquer parte, para além de sua vaidade discreta.

. Fã das cantoras de rádio nos anos 50,  gostava de cantar como elas. “As mulheres é que tinham o lance do coração”. Ao perceber que se tornaria adulto, com voz de homem, pensou no pior: “nunca mais vou poder cantar”, pois os homens tinham aqueles exibicionismos que não lhe agradavam.  “Até que veio o Ray Charles e me salvou”.

. O isolamento do interior do país aguça a curiosidade dos talentosos. É o mineiro universal, assim como o pernambucano, o amazonense, etc. A novidade vem do coração interiorano que devora a novidade do mundo. Conheci pessoas do sul de Minas que gostavam de filosofia e falavam, entortando os erres: “o Heideggerrrr, no livro  O Serrr e O Tempo ...”.

. Com Wagner Tiso, em Três Pontas, Milton fazia sua leitura da música popular universal: música brasileira, boleros, canções francesas, italianas e espanholas. Ele trabalhou na rádio de seu pai, onde ouvia discos e programava tudo isso. Havia também a música americana, dos cantores, das orquestras, do cinema. E outros tipos de música latino-americana, além do bolero: música venezuelana, cubana, peruana. Uma de suas inúmeras admirações foi a fenomenal Yma Sumac. É um prazer conversar sobre tais coisas com ele, que se torna irresistivelmente tagarela: “E tinha aquela do cinema, que cantava mas era muito bem: Doris Day”.

. Segundo a história tantas vezes contada, o culpado pelas inovações da dupla Milton/Wagner, ainda garotos em Três Pontas, foi o rádio. A transmissão não era tão boa e as músicas demoravam a aparecer de novo na programação. Havia que completar a informação de alguma forma. “Quando chegamos em Belo Horizonte, ao ver o pessoal que tocava, os músicos profissionais, falei pro Wagner: temos que voltar pra Três Pontas e aprender tudo de novo, tá tudo errado!”. Só que os músicos de Belo Horizonte pensaram diferente: “Não mexe nisso, que tá muito bom!”.

. Foi em Belo Horizonte, 63/64: convivendo com Pascoal Meireles (bateria), Nivaldo Ornelas (sax), Helvius Vilela (piano), Waltinho (bateria) e outros, Milton ouve pela primeira vez um disco de Miles Davis. “É a minha voz”, disse aos amigos. Depois, saiu comprando tudo que encontrava de Miles Davis.

. Num show recente no Palácio das Artes, Belo Horizonte, Milton conversa com o público e diz que, ao ser perguntado sobre sua própria música, só sabe de duas coisas: que começou nos bailes da vida aos 14 anos, com Wagner Tiso, e que sua mãe cantava, tocava piano e tinha sido aluna de Villa-Lobos.

. Se fosse apenas cantor ou compositor, Milton já seria um sucesso. Acontece que ele é as duas coisas em altíssimo nível.

. As melodias usando intervalos diferentes, como quartas, quintas e oitavas, a polirritimia clara e desconcertante do violão, a maestria no uso dos acordes menores, a possibilidade de usar escalas pentatônicas, modais ou expandir a melodia até a escala cromática: Milton foi o grande modernizador da música brasileira depois de Tom Jobim.

.  O uso de tríades sobre o baixo pedal como em Milagre dos Peixes, e o emprego de acordes em 4ªs.,tal como em Outubro, confluem com o pensamento do jazz mais contemporâneo. Só que, é bom lembrar, Bituca não é jazz, é música brasileira.

. “Ele apresentou aquelas harmonias, aqueles acordes de 4ªs.; vi ele fazendo aquilo na mesma época em que ouvi o McCoy Tyner” (Hamilton Godoy).

. “ É aquele caso do Villa-Lobos: se a música vem do povo, como é que ele não vai entender?” (Milton).

Uma das grandes influências de Milton (e Wagner) foi o Tamba Trio. Praticamente todos os novos conceitos de seu estilo de composição estavam lá. Se, pra Bituca, encontrar Luiz Eça foi encontrar “ O Deus”, imagino a surpresa de Luizinho ao perceber cristalizadas num jovem compositor muitas de suas idéias mais avançadas. O primeiro disco de Milton Nascimento, Travessia, de 67, foi  gravado com o Tamba e arranjado por Luiz Eça.

Outra influência palpável foi Edu Lobo, que, antes de todos, apresentou uma opção à bossa-nova, com modalismo e sofisticação. É provável que até Tom Jobim tenha encontrado seus grandes sertões musicais a partir de Edu Lobo.  Porque uma das contribuições da geração de Milton e Edu foi mergulhar na identidade brasileira, nas raízes do Brasil. Não mais apenas a cultura urbana, a bossa-nova, o samba urbano do Rio de Janeiro. Agora também a senzala, o quilombo, o rural, a praia nordestina, o barroco mineiro, e mais ainda, a floresta, o índio. E também o folclore das grandes cidades, como quiseram Caetano Veloso, Gilberto Gil e os tropicalistas. A canção brasileira atualiza seu diálogo com a poesia moderna.

Celebramos agora o talento genial de Milton Nascimento. Ao mesmo tempo, celebramos, através dele - pois as coisas nunca estão separadas -, as obras inspiradas de seus companheiros de geração e de todos os artífices desse patrimônio cultural que é a música popular brasileira. Acho que assim Bituca estará mais à vontade.

Chico Amaral




 






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