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CD Tempo Quente | Marina Machado
Apresentação: Chico Amaral
Data: 2013-09-11


Taí um disco legal, cheio de surpresas. Cada vez que escuto, uma coisa diferente me pega. A relação de Marina Machado com a canção é uma beleza, cheia de emoção, inteligência e profundidade.

A escolha das canções traz ousadias e sutilezas. O resultado das gravações é o bastante para nos convencer de sua propriedade.

Confesso que no início questionava: ‘por que esta ou aquela?’, para terminar agradecido por tê-las todas no disco.

A presença, no repertório, de muitos autores menos conhecidos, ao lado de Vinícius, Milton , Marcos Valle e outros, é ato de significado ecológico, que incentiva o convívio das espécies culturais e não se prende a nenhuma monocultura.

Marina é um espelho apurado de sua geração, feita de pessoas inquiridoras, que procuram entre os fragmentos de nosso tempo um fio de verdade, tanto individual quanto coletiva. Olhar nesse espelho vai nos encantar, pois as imagens que ele traz são muito próprias, além de ricas.

Quem estaria contemplando tal diversidade de compositores com tanta sinceridade?
Entre convidados ilustres, como Milton Nascimento, Samuel Rosa e Seu Jorge, cercada por músicos refinados, o que nos chega, principalmente, é a busca da interpretação perfeita, que equaciona técnica e emoção. Podemos falar em técnica da alma. É o que os cantores e músicos procuram o tempo todo.

A seguir um faixa a faixa bastante livre, sem nenhuma pretensão:

  • “Tempo Quente”. De Anderson Guerra, com uma batida eletrônica tipo “new bossa”. A gravação em formato mínimo não esconde a qualidade da canção.
  • “Grilos”. Lado B da dupla Roberto e Erasmo, com belo dueto de Marina Machado e Samuel Rosa. Uma delícia. “Sei que o mundo pesa muitos quilos/não me leve a mal/ se eu lhe pedir para cortar os grilos”, diz a letra . 
    “Candura”. Composição de Max de Castro. Balada meio jovem guarda, cheia de sinceridade. Otimismo triste, pessimismo alegre.
  • “Loa”. O autor é New. As rimas em ‘oa’, o canto despojado, o belisquete radiofônico, com inconfundível sabor tropicalista. “Eu só quero é acreditar”, na música, na nota, nas palavras. 
  • “Assim”. De Moreno Veloso. Em tom menor. O arranjo tem tudo a ver com a novidade da canção. Ninguém vai reclamar de nada. 
  • “Disco Voador”. De Affonsinho. Muita personalidade nessa levada, né não? O Jacques Cousteau da letra mergulha em mares lunares. 
    Alguém encontra alguém na ‘discoviária’. Bin-bon psicodélico nos teclados.
  • “Seu Olhar”. Pop, pop, pop. Música de Seu Jorge. Outro belisquete bossa- novístico.
  • “Otimismo”. De Célio José e Marisa dos Santos. A voz nua e crua dos intérpretes, Marina e Seu Jorge. O solo inspirado de Ricardo Fiúza. Uma gravação linda, talvez a melhor do disco até aqui, pelo menos hoje, não sei.
  • “Vagalumes”. Outra composição de Affonsinho, entra com toda sua alegria de viver. Tudo certo. 
  • “A Paraíba não é Chicago”. Do grande Marcos Valle. “Groove” bom de baixo, batera, piano elétrico, + violão, vozes, triângulo. Notem a precisão do canto de Marina.
  • “Discovery”. Do poeta Lula Queiroga. Levada de piano Fender e tudo o mais. Milton Nascimento no suingue. Por que não?
  • “Lília”. Uma das mais belas composições de Milton, numa ótima versão. Mais uma vez a voz é um instrumento, apresentando a melodia com 
    despojamento. Levada drum ‘n’ bass + tampura, dando um ar hipnótico a esta faixa.
  • “Samba de Gesse”. Vinícius em clima neo-bossa. A composição redonda, o canto singelo e as ranhuras na base eletrônica. Muitas cores no violão de Tatá Spalla.
  • “Simplesmente”. De Samuel Rosa e Chico Amaral. De uma longa lista de letras que homenageiam a rua da Consolação, feitas por mim, a maioria inexistente. O equilíbrio, na gravação, de simplicidade e bom-gosto, é a síntese do disco. 
  • “Unencounter”. Com todo frescor, a canção é revivida. Tudo musical, a voz, os vocais. O compasso 6/8 foi uma grande sacada.

Chico Amaral




 






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